sábado, 7 de fevereiro de 2026

Hienas Oportunistas

 
A vigilância não foi minha escolha inicial.
Ela nasceu quando a bondade foi interpretada como fraqueza,
Quando a solidariedade virou terreno de abuso
e a confiança, um convite ao excesso.
Por isso caminho de costas para o passado
e de frente para as hienas.
Não as temo —
apenas reconheço sua natureza.
Quem avança às claras encontra resistência;
o perigo verdadeiro sempre vem do entorno,
nunca do confronto direto.
Aprendi a ser desconfiado,
não por prazer, mas por necessidade.
A precaução tornou-se razão,
a palavra, lâmina exata.
Aos olhos de alguns, sou rude;
aos de outros, excessivamente duro.
Poucos percebem que isso não é agressão,
é uma defesa convertida em consciência.
Não fui assim desde o início.
Fui sendo moldado
até perceber que, ao tentar ser tudo para todos,
eu me anulava.
A antiga forma prometia virtude,
mas entregava sofrimento.
Apegar-me a ela seria permanecer preso
a sentimentos que nada construíam.
Há um limite entre servir e se perder.

Até o Cristo, símbolo máximo da entrega,
não agradou a todos.
Se a perfeição não foi suficiente,
por que exigir de mim o impossível?
As hienas existem porque o mundo permite.
Elas se agrupam não por força,
mas por oportunismo.
Na vida comum, surgem justamente entre aqueles
a quem se deu o melhor de si.
São presenças que não atacam de imediato:
observam, rodeiam, esperam a falha,
pois vivem da distração alheia.
Hoje não concedo mais esse espaço.
Não por rancor,
mas por lucidez.
Quem aprende demais com a dor
não esquece — compreende.
Foi isso que me transformou.
Não em algo pior,
mas em alguém desperto.
E quem confundir vigilância com fraqueza
descobrirá que há reações
nascidas não da ira,
mas da consciência
de quem já foi profundamente ferido.

Jair Ribeiro Juquinha

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